domingo, 8 de novembro de 2009

2 O'clock

          Eram duas da manhã, quando acordei com o peso da madrugada. Havia alguma coisa no ar que meus olhos, acostumados a pouca luz do cômodo, não identificaram. Ainda assim, sentia a angústia. Abri os ouvidos. Claro... Meus olhos não podiam ter visto o que me acordara; aquela melancolia que me assaltara o sono era não mais que uma melodia simplória, um choro lamentável que viera de algum canto do mundo e encontrara uma fresta para adentrar o meu.
          Tentei retomar o sono, mas meus ouvidos já estavam tomados por aquele som fino, constante, carregado de tristeza, e meus olhos procuravam, erroneamente, o caminho que ele decidira tomar. A luz da lua projetava sombras azuis – em formas de árvores secas – em minha cama, e, ao me pegar olhando-as, percebi que o choramingo melancólico só poderia ter entrado por ali: a janela, aberta. Iria acabar com aquilo.
          Foi quando me levantei e apurei meus sentidos que percebi que o choro nem era tão audível assim. Era de um jovem. Pela altura e intensidade, supus que ele devia estar longe, mas, quando cheguei à janela e me pus a observar a rua, constatei que isso era impossível de se saber: ele vinha de todos e de nenhum lugar.
          De qualquer maneira, longe ou perto, era frágil. Tão frágil que era claro que bastasse o fechamento da janela e nunca mais voltaria a ouvi-lo. Ele era oscilante, fraco. Incapaz de atravessar uma simples vidraça e voltar a me perturbar. Quando segurei os puxadores de madeira, dei uma última atenção àquela melodia vã, que chegava a ser ridícula, e não me assustei quando me peguei rindo.
          Sim, eu ri. Ri daquele ser fraco e deprimente que nem ao menos sabia chorar. Ri porque ele – ao contrario de mim – nunca soubera o que era ser feliz e nunca, em sua vida ínfima, fora amado. Caso contrário, não estaria em qualquer lugar no nada, chorando um choro tosco. Ri de sua ingenuidade ao pensar que, chorando, ficaria melhor; sem saber que – ao acordar, no outro dia, ele sentiria ainda mais dor.
          Aquele choro lamentável não era digno, nem ao menos, de pena. Eu fecharia a janela e ele não me incomodaria mais. Ele seria esquecido por mim e continuaria vagando pela escuridão azul da rua a procura de frestas nos mundos de outros. A procura de outras noites para pesar.
          Acontece que, quando fechei a janela e voltei para a cama, percebi que ainda podia ouvir o choro reverberando pelas paredes. E me assustei – desesperadamente – quando olhei pelo quarto e constatei que, sozinho, aquele ser que chorava lamentavelmente estava sentado na cama, pedindo socorro a si mesmo, sob o peso da madrugada.

Rafael M. Watanabe

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Proposta.

ELE disse, em alguma hora: – Oi. Olha, eu não sou muito bonito, ok? Pra ser sincero me acho até feio; mas é o que dizem: se eu não acreditar em mim, quem vai? Bom, de qualquer maneira, eu sou simpático. Não que eu esteja me achando, mas é que procuro ser educado com as pessoas, principalmente com as pessoas que gosto… E eu gostei de você :$ Gostei mesmo. Tanto gostei que estou me dando o trabalho de destacar meus pontos positivos (o que, por um lado, é um ponto negativo, se você não gostar de pessoas que pagam de egocêntricas), caso contrário, não ligaria a mínima pra 'quilo que você pudesse achar de mim. Mas eu ligo. E isso é estranho, entende? Porque nos nem nos conhecemos pessoalmente, aliás, acabamos de nos conhecer. Mas você já está tão presente… E é por isso que devo estar sendo tão prolixo com uma coisa que hoje em dia é tão banal… É, deve ser isso. Entende onde quero chegar? Eu não te considero banal, não nos considero banais. Não posso permitir que essa fagulha que você acendeu em mim se encontre no mesmo lugar-comum que tantas outras, daqui a algumas horas. (…) Você conseguiu se fixar onde eu tinha prometido a mim mesmo que jamais ninguém se fixaria facilmente, e é por isso que eu não posso deixar essa oportunidade ir. Aliás, sinto que ela não vai. Sinto que nós, aqui e agora, podemos ser diferentes do que a maioria. Sim… (Viu, estou chegando a um ponto onde o que me resta são os argumentos clichês, por você.) Olha, tenho uma proposta pra você: Sem medo algum, sem receio de sofrer, de quebrar a cara, de chegar lá na frente e pensar “que burrada é essa que eu fui fazer?”, eu vou deixar que me conheça. Vou deixar que chegue tão longe quanto quiser. Vou te mostrar meus pontos fracos, e os fortes, se quiser. Vou te contar quais meus livros preferidos e, também, porque eu prefiro muito mais uma boa conversa com amigos do que uma balada no sábado. Vou deixar que você entre no meu ser e que descubra aquilo que quiser, meus segredos mais escondidos. É isso: vou abrir meu coração pra você, e te entregar a chave… E mesmo que você hesite em entrar, ele permanecerá aberto. (…) :$ Topa?

Ele respondeu, logo depois: – Abre a webcam, primeiro. :D

Rafael M. Watanabe

N.A. (Nota do Autor): Escrevi no impulso, por uma coisa que me aconteceu, muito parecida com isso. É uma pena como as coisas, definitivamente, caminham pra um final que não é o que meu lado otimista sempre imaginou. Boa Noite.

sábado, 19 de setembro de 2009

Em Cena.

          Chovia – Talvez não estivesse realmente chovendo, mas era essa a impressão que tinha enquanto aproveitava, de baixo do chuveiro, a meia hora que conseguira para se ajeitar... Chorando. A casa estava suja, o que nem sempre fora assim; porém, o ‘sempre’ parecia tão distante que ele se pegara acostumado com a sujeira... Da sua vida. 
          Ele saiu do banho. Inconscientemente, rezava para confundir o veneno para ratos com o perfume caríssimo que comprara. Aliás, se o gosto fosse tão ruim quanto o cheiro, ele poderia morrer de ânsia.
          Não, não tinha coragem. Não podia se matar. Não agora que seus dias tinham ganhado algum sentido... Quem ele estava querendo enganar? Ele não se mataria porque não tinha coragem pra isso. Tanto não tinha coragem que ainda nem sequer secara o cabelo, afim de que suas lagrimas se confundissem com a água que escorria do mesmo.
          Sozinho, em um momento tão próprio, não se reconheceu ao se olhar no espelho. Suas atuações de pessoa-sempre-de-bem-com-a-vida o estavam tomando por completo, e, quando se via sozinho, não se reconhecia. No começo, não se importou. Passava sempre a imagem de quem não tinha problemas, e isso lhe garantiu boas companhias e boas lembranças. Mas, um dia, percebeu que ele não era mais ele; que seus companheiros não queriam mais sua companhia, e sim a do palhaço que tomara seu lugar.
          Saiu da frente do espelho. Não se permitiu mais reflexos e reflexões. Momentos como aqueles eram tão raros que, quando conseguia um (no caso, inventando uma passada rápida em casa para tomar um banho), não o agüentava por muito tempo. E, de qualquer maneira, eles estariam ali a qualquer minuto, pronto para perguntarem sobre uma nova piada de seu acervo. 
          Vestiu a calça, colocou as meias e depois os sapatos. Enquanto fechava a camisa, pegou aquele mesmo perfume – que nem queria comprar – e usou-o. Apagou as luzes e, um minuto antes de fechar a porta à suas costas, a campainha tocou: eles chegaram.
          Estava pronto para descer quando se lembrou da maquiagem. Voltou, afinal, quem era um palhaço sem maquiagem? Com uma ultima olhada no espelho, arrumou o nó da gravata e verificou as chaves no bolso. Trancou a porta, desceu, foi até o portão – onde eles deveriam estar esperando – e, antes que o abrisse, esboçou um sorriso. Falso.

Rafael M. Watanabe

N.A. (Nota do Autor)

Que fique claro que eu definitivamente não abandonei o blog. E essa frase é o máximo que vou escrever sobre isso (e para as pessoas que ficam achando isso). Bom, antes da atualização, quero informar que – infelizmente – o novo autor não pode me enviar o texto, ainda. Seus problemas com horários e situações indesejáveis continuam, e ele, como eu, não escreve por escrever. Mas ele ainda tem – assim como eu – o ato de escrever como prioridade, então, não se preocupem e não fiquem espalhando boatos que não podem comprovar. Obrigado.

N.P. (Nota Pessoal)

É com muito orgulho que quero anunciar que meu blog ganhou dois selos. Sério. Devido a falta de tempo para atualizar (ando realmente sem tempo para entrar na internet – inclusive, colocarei ali no menu os horários que o EscrivaMinha passará a ser atualizado), não pude agradecer formalmente aos grandes blogueiros da Blogsfera e seus respectivos blogs. Bom, em primeiro lugar, quero agradecer a Inez, do blog Orientação Vocacional pelo selo “Teu Blog é Tri Legal”. Muito obrigado, fico grato que ela tenha lembrado de mim na hora da premiação, visto que ela tem um dos blogs que eu tenho como meus favoritos. Em segundo lugar, quero agradecer ao Gabriel, do blog Achômetro, pelo selo “Blog de Ouro”. Quando visitei a pagina dele pela primeira vez, logo de cara, pensei: “Ok, mais um blog de coisas engraças que só são ‘ctrl+c / ctrl+v’. Mas dei uma lida em seus posts (rapidamente, devido a falta de tempo) e assisti seus vídeos. Uma pessoa super simpática, com um blog ainda mais simpático e legal. Também passou a fazer parte dos meus favoritos, e eu fico extremamente honrado de ter sido premiado pelo dono de um blog como o dele (e nem preciso comentar sobre como fiquei com seu comentário sobre o Teaser I). Bom, obrigado aos dois, novamente, pelos selos, e em breve estarei indo nos blogs que eu acho que merecem os selos avisando que estou os indicando.

PS: Os respectivos selos podem ser visualizados ali, na apresentação de slides.

domingo, 23 de agosto de 2009

Escrivaminha – Teaser I

Primeiro de alguns (ou vários) Videos promocionais do Escrivaminha. Espero que gostem. Fiz o texto do vídeo – ao contrário do que será com alguns daqui pra frente – exclusivamente para o mesmo. Nessa semana, como prometido, o novo texto, do novo autor. Peço desculpas por ele, ele anda sem tempo e passando por momentos bem difíceis.

Rafael M. Watanabe