Ollie.

em sábado, 24 de julho de 2010

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          Sempre estive de olhos fechados. Primeiro por criação. Depois por escolha – duas, na verdade – a primeira foi quando conheci um estranho e confiei a ele meus passos: fui parar num abismo; a segunda quando saí do abismo e percebi que era tão mais fácil continuar com os olhos fechados. Não ver não dói. É simples.

          Gosto de dizer que sou verdadeiramente cego, e com razão. Escolhi ser assim e assim sou, verdadeiramente e orgulhosamente. Afinal, onde está a graça de se ter nascido privado da visão ou ter sido forçado a entrar num caminho sem luz? Eu não, sou cego porque não quero ver, escolhi isso. E quem não quer ver, logicamente, não vê.

          Fechei os olhos e, desde então, caminhar ficou mais fácil. Mas hoje, depois de tudo, depois de tudo que aconteceu e continua acontecendo, depois de sofrer, de me cansar, de me machucar, de machucar, de trombar, de cair, levantar, sorrir, acenar e não lembrar da moça que me dirigiu um sorriso, subir morros em passos falsos, confiar nos caminhos alheios, eu continuei de olhos fechados.

          Afinal, sou cego. E a vida é bem mais simples nos meus tons de cinza.

N.A.: Resultado de uma experiência minha. Hoje acordei duas vezes: a primeira quando o despertador tocou; a segunda quando minha mãe me mostrou uma carta escrita por uma pessoa próxima. E, pela segunda, me veio um pensamento que, deixado ao livre acaso e ao teclado solto, resultou nisso. É novo e me dá medo.

3 comentários:

Henrique disse...

Gostei. =D Comentários mais profundos no emiessiene.

Gabriel disse...

Ótimo texto! Como todos os seus, Rafael.

Isabella F. disse...

É da natureza do ser humano enxergar só o que seus olhos podem ver e não aquilo que está por trás do horizonte...

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Não se acanhe, e procure ser legível. =)