Além da Linha.

em terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
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        Não conseguia escrever. Tinha vontade, tinha idéias, tinha tempo e talento pra isso, mas as palavras simplesmente não saíam, elas ficavam presas em sua cabeça, embaralhadas, à espera daquela sentença que sairia primeiro e puxaria junto todas as outras. E se viu acomodado com a ideia de não escrever porque, certo dia, se viu sem motivos pra isso e – afinal – não escreveria sem motivos.
       Acontece que lá estava ele, sentado à beira do papel, com um grande motivo à mão... E as palavras simplesmente ainda teimavam em não sair. Talvez, pensou, fosse porque o motivo era pequeno demais, ou porque estava enferrujado; mas logo descartou tais pensamentos: sabia que nenhum dos dois era verdade.
       Então, em um momento de epifania, percebeu que talvez o problema não fosse a falta de motivos, mas sim a falta de metas. Por isso, quase como instinto, pegou a caneta e riscou uma linha no papel e disse que todos seus pensamentos improdutivos ficariam pra trás daquela linha.
       De certo modo, funcionou. Começou a ver as coisas com mais clareza e soube identificar certos pensamentos que não o ajudavam em nada e que, pelo contrário, só o atrapalhavam. Mas isso não era o bastante, ainda sentia que faltava algo. Por isso, pelo bom resultado que tivera anteriormente, riscou uma linha no chão e disse que tudo que ele inventara para fingir ter uma vida perfeita, todo o circo que fora armado ao redor de sua vida-sempre-boa, ficaria pra trás daquela segunda linha. E atravessou-a.
       Bom, de certo modo, também funcionou; mas de uma maneira diferente, uma maneira que ele não esperava. Aquela linha deixaria pra trás tudo aquilo que sempre o afetou, deixaria pra trás aquilo que sempre maquiara o grande motivo que – naquela ocasião – ele tinha em mãos para escrever, mas não escrevia. E ele pode perceber que, se não escreveu, não era porque o motivo era pequeno demais ou porque não tinha metas, mas muito pelo contrário: Todas suas palavras não conseguiriam costurar a tristeza que aquele motivo lhe causara.
       Do outro lado da linha, ele viu que fora criado por muito tempo dentro de uma jaula que, por sua vez, fora criada para o proteger do mundo; e viu também que, enquanto estava dentro da jaula, o mundo crescera e chegara a tal ponto em que ele, com suas poucas palavras, não era mais capaz de se defender.
       Sentiu medo. Sentiu tristeza e sentiu remorso. Conhecer a grandeza daquele motivo à escrita que tinha em mãos o fez pensar que talvez fosse melhor que ele voltasse e se envolvesse na lona daquele circo desarmado em que um dia viveu. Por isso, atravessou a linha de volta e rezou para que tudo voltasse ao estado – supostamente – normal.
        Mas isso, como esperado, não aconteceu. Ele já havia sido exposto e, agora, aquele motivo claro o esmagava cada vez mais, e continuaria esmagando até o ponto em que ele se visse parte do motivo – o que ele particularmente não queria.
       Pensou em como queria poder resolver tudo aquilo como sempre fizera, com palavras, mas chegou a mesma conclusão que chegará mais cedo: suas palavras não eram o bastante, não naquele momento, não no estado em que se encontrava. E, nesse estado, ele não era ninguém. Então, em um ato de desespero, decidiu traçar uma última linha e riscou – em sangue – uma linha em seu pulso. E foi tentar escrever, em vermelho, sua nova história no pós vida.
Rafael M. Watanabe

4 comentários:

Gabriel disse...

isso porque estava sem inspiração! Belo texto!

Guilherme Toscano disse...

E ele morreu. =/

Karine do Prado disse...

Esse texto me fez arrepiar hoje quando li la no CC. Mesmo sem as devidas entonações.¬¬ haha

Ágda disse...

Um caracol de palavras. Isso. Um caracol de palavras. Igual aquele que fazemos numa quadrilha de dança junina.
Onde só vemos os pares direito quando o caracol é desfeito.
Mas antes disso, é só um embolado de pessoas, suor e empolgação junto.
Só isso.

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